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Sistema literário e sistema educacional: um pouco mais de Machado de Assis e Paulo Freire, para entender melhor a formação de leitores no Brasil

  Somos leitoras, mediadoras de leitura, narradoras, estudantes, professoras, escritoras. A atividade intelectual de filósofos, artistas, pensadores,   nos interessa.   Consideramos o conhecimento e a leitura nosso direito. Para garantir esse direito, vamos chamar um advogado! Paulo Freire, advogado de formação e, antes de tudo, um filósofo humanista. Ao falar de Paulo Freire para não pedagogas, preciso ressaltar que está implícito em toda sua obra que a descoberta do conhecimento não se dá apenas na escola, mas em todos os espaços e atividades da sociedade; trata-se de uma condição existencial. Para ele, somos todos mediadores de leitura quando lemos e nos dispomos a dialogar com os outros e outras para intervir na realidade com uma ação contra a “visão fatalista” do mundo. Porque ler é ler a palavra e ler o mundo, percorrer o mundo, desvendá-lo, compreender o seu movimento. É nesse sentido que a leitura é cultura, porque o ato de ler nos mobiliza pela compreensão da p...

DEFERÊNCIAS

  O som dos livros pousando na mesa ainda ecoam no ouvido de Thereza. Ela sente o vácuo do movimento da professora Rosiene se virando do quadro negro para curvar-se sobre a pilha. Lábios pintados de beterraba, olhos prontos. - Diga, Thereza Cristina Trigo dos Guimarães d’Albuquerque, em que posso te ajudar. O tom doce, a voz meio rouca e o jeito de dizer as coisas sorrindo que Thereza amava desde a sexta série eram encorajadores. - sabe o que a gente descobriu?   Naquele momento Thereza ainda não conhecia os desafios que Rosiene enfrentava na vida em cidade do interior. Soube anos mais tarde, quando leu em seus contos, novelas autobiográficas e entrevistas publicadas. Guardou tudo autografado, com carinho. Thereza rememora a cena como se fosse hoje: Rosiene lendo as capas dos livros um a um, para em seguida abrir as primeiras páginas, conferir editora, ano de edição, dedicatórias e bibliografias, referências, tentando entender o enigma: O que teriam em comum aqueles ...

Mãe de bonecas

  Na pia, a pilha de louça para lavar ainda por vencer, quando sou chamada a mediar um conflito entre um marmanjo de seus entrados quarenta de idade e uma recém feita bravinha, com toda a razão dos seus quatro anos de vida. - Meu vô não quer me deixar vestir a roupa de Barbie Havaiana na Barbie Branca de Neve! Quando acabar a cozinha, vou ver o que nunca vi com as bonecas de trocar fraldas e dar papinha. Vou postar foto do flagrante no mural da família. Um homem que brinca é modelo para uma sociedade inteira. Esse que brinca de bonecas, então, merece vela acesa para a Barbie Milagreira. O que não faz uma boneca com peitos! Ponho até flor no altar, para todas as deusas. Na real, não tenho lembrança de brincar alguma vez com meu pai. Nenhuma brincadeira, nem de bonecas, nem de bola, nem tenho imagem dele sobre uma bicicleta. O que ele gostava era nos levar para passeios e visitas. Pedalinho, barco, trem. Aventuras de parques e praças, beira de rio e mato, com viagens curtas de ...

Habeas data

  A pergunta veio de chofre: - A gravidez foi planejada? - Por quem? O olhar do médico desatou-se da tela e me encontrou pela primeira vez. - Pelos pais. - Sem pais. Ouvi no suspiro dele os longos anos de exercício profissional. - Você é a mãe do bebê na sua barriga? - Claro. Outro suspiro, esse da alma. - O que faz de mim uma senhora. As mãos no teclado esperando a resposta. Eu, do outro lado da mesa, esperando a pergunta. - Então? - Então, o quê? - A gravidez foi planejada pela senhora? Mergulho na cena em que conto para minha mãe que quero ter um bebê igualzinho o meu vizinho de porta na vila. Desista! Bonito assim você não vai conseguir na vida! Ela riu, depois espalhou a anedota. Certeira. Nunca na vida encontrei alguém tão bacana. Quis também ter um filho fofinho igual ao irmão da minha vizinha nissei. Outra anedota contada pela minha mãe. Eles gostam de gênios na matemática, era seu dito motivacional, ou aprende matemática, ou nenhum japonês v...

Querido diário,

  Oi, sumido!  Curtiu sua temporada de fundo de armário? Mamãe até que te cuidou bem, entre todos, o mais Tchans! Cinquentanos de caixas e caixas de quinquelhos prá tirar do mofo e do deusmelivre! Estou há dias nessa arqueologia. Encontrei as edições secretas de quando você era criança e gostava mais de figurinhas e desenhos, corte e cola e pinta. Páginas grudadas da nossa história. Na sequência, vi os erros. Os cedilhas, deslocados, mas na mais caprichada letrinha. Tuas páginas ainda têm o jasmim das tardes de caligrafia. Achei tua versão em saltos altos, ensaiando uma valsa - como se coubesse tanto luar. Te achei tão jovem, chei’de criatividade. Muita história eu tinha prá contar!   Lembro que percebi que eram histórias interessantes, no mesmo dia que te descobri nem tão secreto assim. A cena:   Mamãe - roupão amarelo, laranja e preto - enormes flores atoalhadas amarradas na cintura. A memória: O que parece maior, bobes prendendo os cabelos, ou o diário balançand...

Na Beira

  Prendeu o coque com um garfo, arregaçou as mangas e enfiou os braços na tina de cobre. Lavou a alma. Desde o parto não se sentia tão fria. Jogou a criança fora com a água da bacia. Suja. Era assim que se fazia naquele lugar.   Conferiu o tempo nos voos dos pássaros. Não havia mais horas. O pulso nu. Traçou uma lua na beira da poça. Cheia. Os astros logo se mostrarão. Volúveis. Tomou fôlego. Limpou o leite. Engoliu uma constelação. Arrepiou-se. Fez uma dança de folhas secas. A terra podre. Fétida. Algo passou pelo pensamento. Bem longe. Uma lembrança besta. Leve. Nem se deu amor. Nem pegou fruta no pé. Sentia-se chovendo para dentro. Fundo. Afogava o espírito. Solto. Olhava assim para o oriente. Meio torto. Suspeitava que seus dias de loucura caminhavam para lá.   Queria seguir. Vazia. As pernas não desenrolavam do umbigo. Cotoco. Recolheu os gravetos. Amarrou um nó na barra da saia e pulou a noite. Mal despontado o primeiro cume, segurou o garfo pelo cabo com força e ar...

Comentário sobre Tratados dos Ventos na Maré Cheia, de Cristiane Sebastião. Santos, SP: AG2, 2021.

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  Já falei para vocês desse livro que encontrei no ano passado, Tratados dos Ventos na Maré Cheia - um livro sobre a autodeterminação de uma mulher, seus processos e procedimentos para enfrentar ventos e marés, aquilo que não regulamos, não controlamos, não alcançamos, mas nos atinge em cheio. Então é assim que é uma Nereida! – pensei, quando vi a autora, chegando para o lançamento do seu livro na Circulares Livraria, em Brasília onde esteve apresentando uma oficina de escrita. Tivemos uma conversa ensolarada no evento, ampliei minha leitura de mundo. Fiquei encantada. Me atraem livros grandes, com ilustração envolvente, imagens em prosa e verso e um lugar para respirar. Cristiane Sebastião, garota valente, uma mulher apaixonada, com complexas conexões poéticas, descongela as palavras sem medo, pondera: o quanto uma mulher suporta ser invisível. Ela mergulha no que acontece quando se dá conta do que está causando que ela esqueça dela mesma. Ela descreve como devolve o que nunca lhe...