Mãe de bonecas
Na
pia, a pilha de louça para lavar ainda por vencer, quando sou chamada a mediar
um conflito entre um marmanjo de seus entrados quarenta de idade e uma recém
feita bravinha, com toda a razão dos seus quatro anos de vida.
- Meu vô
não quer me deixar vestir a roupa de Barbie Havaiana na Barbie Branca de Neve!
Quando
acabar a cozinha, vou ver o que nunca vi com as bonecas de trocar fraldas e dar
papinha. Vou postar foto do flagrante no mural da família. Um homem que brinca
é modelo para uma sociedade inteira. Esse que brinca de bonecas, então, merece
vela acesa para a Barbie Milagreira. O que não faz uma boneca com peitos! Ponho
até flor no altar, para todas as deusas.
Na
real, não tenho lembrança de brincar alguma vez com meu pai. Nenhuma
brincadeira, nem de bonecas, nem de bola, nem tenho imagem dele sobre uma
bicicleta. O que ele gostava era nos levar para passeios e visitas. Pedalinho,
barco, trem. Aventuras de parques e praças, beira de rio e mato, com viagens curtas
de carro. O que ele queria mesmo era comer algo bem fresco e depois, dormir. Na
rede, na sombra, ou em casa. Além das
tardes de feriado, dois momentos obrigatórios para dormir: depois do almoço e
de noite. Sem discussão. O soninho da tarde, não me largou mais. O da noite
teima em traquinagens.
Beijoca,
de cabelos ruivos, estalava os lábios quando eu apertava seus braços, discutia
todos os roteiros comigo, na cama, até meu pai ir lá nos calar com sua voz de
trovão abafada. Minhas quatro bonecas de vida inteira fizeram papel de alunas
nas minhas aulas, de plateia nos meus shows imitando a jovem guarda, de
monstros na Terra de Gigantes e No túnel do Tempo, eram quem estavam comigo nos
submarinos de Viagem ao Fundo do Mar. Franjinha e cabelo amarelo, Belinha foi a
que mais sofreu minhas torturas. Servia de namorado da Susi, de soldado e arma contra
os meninos - mais tarde, nos gibis, aparece o Sansão para o papel - e, de cobaia de laboratório estético, tutti estrambelhada.
A quarta boneca era o Bebezão, daqueles que o caminhão distribuía para alguma
ação social com crianças. O meu era Carlinhos. Um boneco duro, cabelo de
plástico, olho pintado, de short e sem pinto, foi figurante em todas as cenas de
casinha da minha infância - convidado de chá das tardes no meu espaço de única moça
da casa, isolada dos perigos da rua.
As
bonecas diziam tudo dos nossos status sociais. As competições eram mais
notáveis nos movimentos de sobrancelhas de meninas e mães, quem tinha a mais
alta, a mais antiga, a mais articulada, a mais natural, a melhor vestida, a
mais conservada, o lançamento mais recente, quem tinha mais. Fomos Socialites mirins de batizados, festas
de aniversário e concurso de Miss de bonecas. O cuidado maior era da minha mãe,
ninguém mais tinha lista de produtos de beleza para limpar bonecas e agendas de
hospitais de emergência para repor peças.
Até
meus tantos anos, ainda encontrei abraços e beijos no colo das minhas quatro
crias de loja, que passei de herança para uma afilhada. Memorável foi minha
coleção de fofoletes. Mais adolescente e adultinha. Mania de minibolotas de
chapéu coloridas por anos e em todo lugar, no meio dos livros, na bolsa, nas
mesas de trabalho, nas salas de aula. A seguir minhas fofurices seriam as
bonequinhas que teci no útero.
Com
minhas filhas, brinquei de bonecas de pano, escolhidas em passeios nas feiras e
visitas às cidades vizinhas para eventos de cultura e história, nossos preferidos.
Nossa boneca amiga mais terna foi a Maria Grampinho, do conto de Cora Coralina,
para nossa companhia. Entre Fridas e Baianas, Emílias e Chapeuzinhos Vermelhos,
ainda incluímos umas feitas por nós. Tempos de ciranda e amarelinha.
As
malas do universo Barbie começaram a chegar e sair de contrabando dentro da
família, entre primas. Ocuparam todo um armário. Contei cento e quarenta e
quatro Barbies no baú das minhas filhas, e tinha motorhome, carro, lancha,
barraca de camping, tudo da Barbie. Nenhum Ken. Os papeis masculinos eram assumidos
pelos action figures das coleções de Falcon dos primos e agregados – as
princesas namoravam os vingadores, Bela adormecida e Hulk, na boa, venciam os
dramas infantis de meninos e meninas juntos e misturados com carrinhos e robôs
de pilha, reproduções de todo tamanho de dinossauros e Legos. Até que, um dia, o
planeta foi invadido por Play Mobil e Polly. Outros modelos penetrando o nosso
viver. Tudo diminuiu em tamanho e aumentou em quantidade.
Nada
disso comprado por mim. Nessa emergência da minisociedade de silicone eu já
tinha perdido a conta das vezes que perguntei de onde vêm essas coisas que eu
tenho que catar, limpar, guardar, defender nas brigas com o pai, com as filhas
da vizinha, das mandíbulas do cachorro e do gato. Penso se terão que ser
conservadas para a eternidade. Me desespera
ter que me submeter ao destino de guardiã da galáxia. Para sempre ser esse
modelo da vitrine, a mãe perfeita.
Tiro
uma carta. Oráculo das deusas. Recebo a visita de Lakshmi, jorro abundante e
eterno da fartura, inesgotável, ilimitada. A mensagem me avisa que eu atraio
essa abundância. Bom, se depender de mim, então eu resolvo do meu jeito. Me
sento em posição de lótus, relaxo e medito. Me vejo em um túnel agradável e bem
iluminado. Lá dentro, em almofadas suntuosas e luxuosas, encontro a deusa
vestida de cor de rosa. Ela me estende a mão, agradeço. Entrego uma lista de objetos palpáveis que quero
trocar. Creio que eles podem ser mais necessários em lugares onde haja escassez
de imaginação. A deusa concorda e me oferece uma outra lista, doce e perfumada.
A energia dourada da lista em minhas mãos percorre todo meu corpo e me sinto
aliviada. Nos despedimos com um abraço leve e eu volto pelo túnel. Respiro.
- Deixa
aí que eu termino a louça. Vai lá, brincar com as crionças. O Bento fica rindo
da minha cara o tempo todo. Não entendo
nada dessas coisas de roupa de mulher mesmo! Tanto mais de sereia - de onde
apareceu aquela concha enorme com uma Barbie dentro? Desde quando tem Barbie
sereia? Nunca vi! E por que tem que ter tanto sapato? Você acha que a Barbie
vai reparar se um pé for azul e outro verde? Quem garante que a Barbie não é
daltônica? Mas a Larissa quer tudo certinho! Além disso, no meu tempo não tinha
Barbie de pé no chão. Quase fui linchado quando perguntei q boneca era essa. Agora
tem que achar sapato que não é de ponta! muita exigência pro meu tico-e-teco.
- É
verdade, Barbie é muita informação. E só se multiplica. Vou lá enfrentar as
feras. Brinca com a bolinhas de sabão.
Largo
a louça nas mãos de um homem bravinho, recém entrado no universo dos avôs. A
pia não acaba nunca. Tampouco acaba a geração de crianças que brinca de
bonecas. Estou consciente de que com todas as barbies e modelos de loja, o que
está valendo mesmo na nossa vida é o abraço generoso da deusa.
Para
quengas literárias
30.08.2023
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