Comentário sobre Tratados dos Ventos na Maré Cheia, de Cristiane Sebastião. Santos, SP: AG2, 2021.
Então é
assim que é uma Nereida! – pensei, quando vi a autora, chegando para o
lançamento do seu livro na Circulares Livraria, em Brasília onde esteve
apresentando uma oficina de escrita. Tivemos uma conversa ensolarada no evento,
ampliei minha leitura de mundo. Fiquei encantada. Me atraem livros grandes, com
ilustração envolvente, imagens em prosa e verso e um lugar para respirar.
Cristiane
Sebastião, garota valente, uma mulher apaixonada, com complexas conexões
poéticas, descongela as palavras sem medo, pondera: o quanto uma mulher suporta
ser invisível. Ela mergulha no que acontece quando se dá conta do que está
causando que ela esqueça dela mesma. Ela descreve como devolve o que nunca lhe
pertenceu, e nos mostra que mulher é essa que se reconhece onda brava na maré alta.
Nesse mergulho profundo do eu, as roupas conversam com ela. Ela fecha a janela
e abre o sol. Ao registrar-se no topo dos seus afetos, assume sua
responsabilidade de encarar fantasmas e desconstruir cenários íntimos para se
tornar amiga do tempo. Leio as metáforas que Cristiane editou para descrever o
processo terapêutico-literário dela: Porto, Travessia, Mergulho, Superfície.
Acato a lição da autora, professora, militante, brava Cristiane: “Assuma na
palavra teu lugar no mundo”.
As
metáforas que Cristiane selecionou para compartilhar o aprendizado que ela traz
registrado no livro são bem claras para quem vive na costa de mares e rios e enxerga
as marés. Eu, habitante de terras áridas, me flagrei precisando de mediação
para enxergar melhor se o lago Paranoá, meu cotidiano, sofre mudanças de maré.
A palavra maré denota mar, oceano, algo imenso. Tão imenso que só o ser humano poeticamente
pode conter. Fiquei refletindo sobre como tratamos essa imensidão contida na
gente.
Acato
a sugestão de redigir Tratados - algo que eu só via possível entre países dos
livros de história – como didática para minha atual etapa do curso de
autoconhecimento. Essa quantidade de versões de mim mesma, minhas pessoas
interiores, também contam. Converso comigo e resolvo como vamos nos tratar na
passagem de uma etapa da nossa existência no planeta.
Transformo
minha conduta, viro um país, em um planeta - tenho geopolítica, um corpo físico
e poder, assumo. Contenho oceanos e rios
e lagos de energia que sintetizo em sentimentos e pensamentos. Comunico-me com outros
seres físico-químicos e imprimimos essa informação na mente genérica do
universo.
De
repente, eu também vento.
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