Querido diário,

 

Oi, sumido! 

Curtiu sua temporada de fundo de armário? Mamãe até que te cuidou bem, entre todos, o mais Tchans! Cinquentanos de caixas e caixas de quinquelhos prá tirar do mofo e do deusmelivre! Estou há dias nessa arqueologia. Encontrei as edições secretas de quando você era criança e gostava mais de figurinhas e desenhos, corte e cola e pinta. Páginas grudadas da nossa história. Na sequência, vi os erros. Os cedilhas, deslocados, mas na mais caprichada letrinha. Tuas páginas ainda têm o jasmim das tardes de caligrafia. Achei tua versão em saltos altos, ensaiando uma valsa - como se coubesse tanto luar. Te achei tão jovem, chei’de criatividade.

Muita história eu tinha prá contar!  Lembro que percebi que eram histórias interessantes, no mesmo dia que te descobri nem tão secreto assim. A cena:  Mamãe - roupão amarelo, laranja e preto - enormes flores atoalhadas amarradas na cintura. A memória: O que parece maior, bobes prendendo os cabelos, ou o diário balançando aberto na mão dela? A viagem: O relógio era um exagero, eu me senti pequena. Tudo descrito, em outra temporada, mais adiante – quando você era algo mais tipo Roteiro de Universitária.

Lembrei de crescer. Minhas histórias parecendo de verdade! Escrever virou de propósito. Minha mãe virou minha leitora cativa. E, você, parceiro.

Quase joguei tudo no caminhão de coleta seletiva, sem olhar, junto com a tralha toda. Um museu, um memorial! Agendas, cadernos de anotações, pilhas de recibos e notas e panfletos e cartões de visitas, cartas! Caixas de botões, chaves, chaveiros, parafusos, pregos, clipes, grampos, pecinhas. Fotos, álbuns, figurinhas, pedaços de fitas, agulhas, carretéis, dedais.

O quartinho do fundo virou uma pirâmide de faraó, com a síntese eletrodoméstica das vidas que aqui passaram. No meio disso, você! Esbelto, chei’ de glitter! O mais belo da sua linhagem. Vejo, no inventário, que você virou coleção (o que não deixa de ser uma promoção, hein, diário querido?). Tô curtindo ver o eu que você traz na tua barriga de papel. Minha memória digerida.

 Estou com falha na coragem de deixar você ir sem antes te oferecer um chá - na mesinha perto da janela, biscoitos, caneta de cheiro, escrita solta e uma leiturinha rápida. Talvez você goste de ficar mais um tempinho na estante da lateral, o que acha?

Querido diário, foi um prazer te reviver! Renovo minha vontade de te revisitar. 

até breve, então.

Valéria Barros Nunes

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