Habeas data
A pergunta veio de chofre:
- A
gravidez foi planejada?
- Por
quem?
O
olhar do médico desatou-se da tela e me encontrou pela primeira vez.
-
Pelos pais.
- Sem
pais.
Ouvi
no suspiro dele os longos anos de exercício profissional.
- Você
é a mãe do bebê na sua barriga?
- Claro.
Outro
suspiro, esse da alma.
- O
que faz de mim uma senhora.
As
mãos no teclado esperando a resposta. Eu, do outro lado da mesa, esperando a
pergunta.
-
Então?
-
Então, o quê?
- A
gravidez foi planejada pela senhora?
Mergulho
na cena em que conto para minha mãe que quero ter um bebê igualzinho o meu
vizinho de porta na vila. Desista! Bonito assim você não vai conseguir na vida!
Ela riu, depois espalhou a anedota. Certeira. Nunca na vida encontrei alguém
tão bacana.
Quis
também ter um filho fofinho igual ao irmão da minha vizinha nissei. Outra
anedota contada pela minha mãe. Eles gostam de gênios na matemática, era seu
dito motivacional, ou aprende matemática, ou nenhum japonês vai querer casar
com você. Não sei quando desisti.
- Sem
planos.
Aos
treze anos, eu descobri que não precisava casar-se para ter filhos, mas a parte
de relação com homens me dava repulsa. Dos quatro anos de idade para cima, no
meu mundinho eles eram mandões, fedidos, grudentos, um nojo só. Aprendi a
chutar canela de bobos, esporte das meninas da escola, até depois de dezoito
completos.
-
Algum aborto?
Subi
na moto e passei o endereço. Taguatinga? Sim, mais perto do que Botafogo. Na
frente do prédio ele tira o capacete sem sair da moto. É meu? Valeu a carona. Volto
de taxi. Quanto tempo de atraso? Uns vinte dias. Confirmado? Positivo. Vai ser
anestesia geral. Tem quem te acompanhe?
- Um
único. Espontâneo.
Chamo
uma amiga. Ela traz morangos e chantilly. Lemos I Ching e outros oráculos. Escrevemos
bandeirolas em que queimamos nossas mágoas. Dançamos baladas de ninar até a lua
ir dormir. Enfim, erguida de novo, me encontro com as outras numa ciranda
descalça.
-
Múltiplos parceiros?
Incalculável
essa medida de parceria. Tudo o que eu queria evitar era arcar com o pacote
completo - casa arrumada mulher, adequada impecável que vem com filho. Eu via as trocentas tarefas adicionadas no
cotidiano, e enorme subtração do meu tempo de estudar. Tanto mais filhos, quantos mais parêntesis
para a equação. No final igual a zero. Era a normativa que me revoltava.
- A
Senhora tem múltiplos parceiros? Repetiu e, sem respirar, emendou: simultâneos?
Desta
vez o suspiro veio de mim.
- Múltiplos
OU simultâneos? Ou múltiplos E simultâneos?
Recebi
as flechas do olhar dele. Lembrei de uma amiga que dava aulas sobre orgasmos.
Dava mesmo, não era paga, ainda. As pessoas olhavam torto quando o tema brotava
nos círculos mais acadêmicos. Ela explicava as diferenças: múltiplos,
simultâneos, ativos, proativos e retroativos, e outras 52 modalidades.
Deixei
escapar um risinho, efeito da lembrança. Ele me encarou sério. Algo que não
controlo. A minha palhacinha interior não pode ver cara sisuda que se manifesta
saltitante. Passo a palavra.
- No
eixo vertical, pessoalmente, poucos parceiros; no eixo horizontal,
temporalmente, nenhum simultâneo.
Os
traços aquilinos afundaram no rosto dele. Súbito, ganharam uma cor mais roxo
escuro. Pareciam desenhar a profundidade e a intensidade da vida.
- A
Senhora conhece os riscos da gravidez tardia?
Outra
medida impossível, qual o melhor momento de uma vida inteira para se desdobrar
em outra vida. Muito o que decidir antes do tempo passar. Sozinha ou com
alguém, com homem ou com mulher, com filho ou sem filho, meu ou de outras,
agora ou depois. Tarde demais, as coisas acabaram se resolvendo por si.
- Falta muito? Era minha vez de ser impaciente.
- Envio o cronograma por e-mail. Os exames serão
prévios e posteriores às consultas agendadas no cartão. Tudo seguirá o
protocolo com o máximo de eficiência para o mínimo de riscos. Lembre-se de conferir
se os dados no boleto de cobrança estão corretos. Vamos esperar que tudo saia
bem. Tenha uma boa hora, mãe.
Para Quengas
Literárias
agosto/2023
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