Na Beira

 

Prendeu o coque com um garfo, arregaçou as mangas e enfiou os braços na tina de cobre. Lavou a alma. Desde o parto não se sentia tão fria. Jogou a criança fora com a água da bacia. Suja. Era assim que se fazia naquele lugar.  Conferiu o tempo nos voos dos pássaros. Não havia mais horas. O pulso nu. Traçou uma lua na beira da poça. Cheia. Os astros logo se mostrarão. Volúveis. Tomou fôlego. Limpou o leite. Engoliu uma constelação. Arrepiou-se. Fez uma dança de folhas secas. A terra podre. Fétida. Algo passou pelo pensamento. Bem longe. Uma lembrança besta. Leve. Nem se deu amor. Nem pegou fruta no pé. Sentia-se chovendo para dentro. Fundo. Afogava o espírito. Solto. Olhava assim para o oriente. Meio torto. Suspeitava que seus dias de loucura caminhavam para lá.  Queria seguir. Vazia. As pernas não desenrolavam do umbigo. Cotoco. Recolheu os gravetos. Amarrou um nó na barra da saia e pulou a noite. Mal despontado o primeiro cume, segurou o garfo pelo cabo com força e arrancou-se dos pensamentos embaralhados nos cabelos. Enfim, encharcou-se de vida.

 

Setembro/2021

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