PORRA,
Porra
Porra...porra, foi só o que deu para eu ouvir. Três. Não vi nada, não dava. Meio longe
da vista, alcançou o ouvido. Um ouvido, só. O outro falhou. As testemunhas estão
dando depoimentos. Os jornais estão cobrindo. Gritos – ouvi – seguidos de ação
contundente – não vi – com fria emoção, imagina!
O cara chega em casa e flagra a mulher ouvindo mensagem de tik tok, tira satisfação - que porraéessa – nada disso que você está pensando, porra – não tô pensando nada, porra, me dá essa merda – não dou! Seguido de ação contundente: o cara pega o taco de beisebol e quebra a cabeça dela! Babaca, bruto, idiota! A mulher tinha acabado de lavar toda a cozinha, louça, pia, fogão, chão, paredes, armários. Estilo americano, perfex e mr. músculo. O lixo estava separado, ensacado e recolhido, dia de orgânicos. A roupa tinha secado rápido e estava dobrada nos armários e gavetas cheirosas e limpinhas, sachês de manjericão. Banho tomado, cabelo preso, top de malha e legging de academia, meia e tênis de arrebitar, ela tira um tempo entre as almofadas coloridas no sofá da sala com a filha. Riem de tudo, as dancinhas, os bebês, os gatos e cães que se atrapalham, os que recebem vozes, as vozes repetidas. A internet é uma vida!
Claro que não! Ninguém nem tem taco desse jogo no Brasil, e no mais eu teria ouvido uma ação contundente desse tipo. O jornal teria destacado, na frente da filha. Foi outra coisa, sem dúvida.
O cara tá de boas no jardim do bloco, parece só interessado em colher amoras, a mulher chega do trabalho, devagar na incerteza da medida protetiva, o cara fala manso - saudade, ela pergunta do filho, ele teria que devolver hoje - ele diz que quemsabe não devolve mas volta com ele, ela solta um porra de surpresa, ele ri, meicínico, ela conhece o jogo e chama um porra, cara! de apelo, ele faz um gesto brusco, ela intui e solta mais um porra de socorro antes da ação contundente – um tiro certeiro, à distância regulamentar de 20 mts. Safado, filhadaputa, machista covarde! Bosta de patriarcado. A amoreira era de onde vinham as frutas para as “florestas negras” com que a mulher celebrava os encontros em família. Quase todas as frutas eram do pomar que professora Terezinha fez, quando a quadra ainda era um bebê. A vida inteira foi ali, multiplicando doces caseiros. Tinha mão para olho de sogra, bem-casados, beijinhos de abacaxi, segredinhos de amor, torcidinhos, espera marido, creme do céu, taças gloriosas, pudim dos reis, beijos de freiras, papos de anjo, não-me-toques e suspiros!
Nada disso! Tiro, sim, eu teria ouvido. Certeza. Essa ação contundente foi mais silenciosa, mais sutil, ardilosa, coisa premeditada.
A mulher nem tem teve tempo de se defender, percebeu o golpe com a pedrada a caminho. Primeiro o susto da dúvida – ele me seduziu para me roubar, porra!; seguido da indignação e revolta da certeza – ele levou tudo, porra!; e, finalmente a cobrança - vai pagar, porra! Pagou, com uma pedrada de partir o senho. Salafrário, aproveitador de mulher, ladrão, assassino! Só pode ter sido. Um cruel, serial killer, vampiro da internet. Uma mulher vibrante, com agenda de empresária capaz de sustentar a sua e mais três famílias no negócio. No shape. Filhos criados, renda fixa, comércio próprio, metodista. Cultura urbana e cosmopolita. Encontros, saídas na noite, namoros casuais e UM romance na vida. Sonhos de viagem em navios, dançando Roberto Carlos com alguém alto de camisa para dentro da calça e cinto combinando com sapato. Sonho de homem penteado e de barba feita, cara limpa, unhas limpas. Buscava relacionamentos saudáveis.
Ouvi os porras, não vi mais nada. Não dava prá fazer nada, muito longe para estar
perto, muito perto para estar longe. As testemunhas estão dando depoimentos. O
jornal teria que dizer, creio. Onde aqueles jornalistas que contavam tudo? Quem? Ex
de quem? Com quem? Essas coisas. Nem “a ação contundente” não sei. Porém, “com
fria emoção”, tá lá!
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