Passarin

 

A família era pobre demais para se dar ao luxo de não ter que entrar na fila. Assim ela cresceu esperando o coletivo, esperando o atendimento médico, esperando abrirem as vagas na escola. Nessa esperaciência, ela desenvolveu a habilidade de contar tudo. Quantos homens, quantas mulheres, quantas crianças, quantos calçados, quantos pés coloridos pela poeira vermelha, quantas pedras no caminho. Ao longo da vida foi encontrando mais o que contar: quanta gente com o braço estendido, quantos ônibus sem parar, quantos carros parados na estrada, quantos tocos de giz na lixeira, quantas verrugas nos dedos dos meninos. Aos trinta anos enxergava mais detalhes, mais além, mais rápido. Diziam que ela tinha “olho de passarin”. Ela contava que sua alma também era de passarinho. Mas, isso ninguém via.

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