Manifesto

 

Cartolina estendida no piso, Fernanda escreveu a primeira palavra da tarefa que era para ter sido entregue na semana passada. MANIFESTO. A greve geral de coletivos urbanos adiou agenda dos trabalhos em grupo da escola, mas não terminou o sufoco, tinham que escrever e colar no mural, depois fotografar e enviar pelas redes sociais. Mundo híbrido, arte analógica e digital, tudo ali simultâneo e sem tempo.

Sérginho preferia escrever PROTESTO, mas não cumpriria o parâmetro curricular sobre gêneros textuais. A arte seria justamente transformar o protesto em um manifesto, a ser lido e digerido pela professora de Português, Comunicação e Expressão, ressaltou Paulo. Tinham combinado de fazer os melhores trabalhos para saírem ilesos da marcação cerrada que ela fazia desde o início do ano, ou antes, sem abrir mão das ideias de cada um. Guerra na Classe: Grupo de Estudantes de Diretoria X Tradicional Professora Mezzo-nazi. As estratégias de combate mútuo seguiam civilizadas e discretas, mas constantes.

Paulo sugeriu as táticas com os conteúdos de aula para dizer aquilo que acabavam sempre tendo que explicar na Diretoria. Era o roteiro de episódio final de toda temporada de aprendizado. A Secretaria tinha diversos registros de reclamação da professora Sandra Nazaré Almeida Bezerra contra essa turma. Uma delas, inclusive, era porque ela preferia ser chamada de tia Nazaré, para não confundir com a tia Sandra, professora do infantil.  Mas, eles mantinham, maldosamente, o Dona Bezerra ou, secretamente, o tia Nazi. A Coordenação avaliava inútil separar pares e grupos porque se tratava de uma turma inteira. Os gambás se cheiram, era a máxima da coordenadora, usada para justificar tanto o fenômeno pedagógico como a inação sobre o assunto. Ao final, tudo acaba em formatura, homenagens e seguia seu curso. 

No momento do encontro do grupo, as grandes defesas já tinham acontecido, que material usar, quem traz o quê, local e hora de encontro, onde pedir a pizza. Agora, faltavam detalhes, sobre o quê, para quê, quem. Carecia só redigir um manifesto, o sofrer de casa – nas palavras do Sérginho.

- Vontade de copiar um dos tantos da Semana de Arte Moderna, certeza de que a Bezerra nem ia reparar.

- Para ser autêntico, Carol, tem que ser algo nosso, que a gente queira manifestar.

- Então, precisa de uma centena de cartazes. 

Carol estava no grupo o tempo suficiente para estender as pernas e debochar. Era tímida, quando chegou na escola, um ano antes de decidir ser Iluminista radical e combater o feudalismo na instituição escolar com discursos na hora do lanche, em pé nos bancos da cantina. Uma das primeiras a inaugurar essa turminha que se conhecia do hall de espera da sala da diretora, para as advertências e eventuais suspensões. Paulo era o recordista de suspensões, apesar de calado. Seu estilo era a escrita. Respostas ousadas nas provas. Redações atrevidas. Rabiscos na parede. Um estilo tão próprio que mesmo os panfletos apócrifos tinham sua autoria reconhecida pela diretora.  Sérginho chegou mais tarde, sem chance de quebrar o recorde, acompanhava de perto o podium. Era o cara que furtava o mimeógrafo encostado na sala dos professores para imprimir os desenhos e caricaturas da Jade. Era o que espalhava os cartazes, trazia as tintas, fazia os perfis falsos, resolvia a tecnologia, tinha todos os equipamentos, quebrava os galhos.

Todos com as melhores notas da turma. Menos Jade, que tinha preguiça de caretice e não respondia formulário, exercício idiota, nem pergunta óbvia. Nota máxima na categoria blasé.  Só fazia o que fosse prazer-de-casa, necas de dever. Completamente criativa e talentosa para todas as artes. Na diretoria, ela praticava a arte dramática, com esmero.

- Bastante purpurina por cima da letra da Nanda, gente.

- Quem gosta de purpurina é o de química. A Bê detesta.

- Então, dobra a dose. Mais brilho, mais fúria.

- Você quer mais é se vingar dela por ter chamado sua redação de showroom de sinais gráficos.

- Era uma escrita experimental demais para a visão dela, reconheço.

- Ela só lê um livro, a gramática normativa.

- Enquanto você só tem uma regra: não seguir normas.

- Até que sigo. Primeira regra: divirta-se. Segunda regra: nunca quebre a primeira regra.

Fernanda queria poder ver o mundo da cor do mundo de Jade. Talvez não tivesse tantos conflitos para mediar, toda hora. Se pelo menos mais gente fosse assim, brilhante e feliz como a amiga, o mundo seria mais desencrencado. Certeza de que o cartaz com o toque de Jade seria sucesso visual, uma vez que tivessem achado o que dizer.

- Primeira frase: a relação professor/aluno não é hierárquica.

- Lá vêm você com os sinais gráficos.

- Tira, então! Mas, põe em negrito, pó pô. 

- Se o tema for educação, vamos precisar mesmo das centenas de cartolinas.

- O tema é hierarquia na escola, sem aspas.

- Aspas, prá quê? Prá proteger a hierarquia ou a escola?

- Aspas em hierarquia fica parecendo andaime. Se colocar em escola, ela fica tão isolada, tadinha.

- Sem purpurina, sem aspas, sem barra, sem negrito. Vai ser um manifesto nude.

- Venceu o minimalismo textual.

- Tem que ser direto e objetivo: somos contra isso e a favor daquilo. Contra hierarquia na escola e a favor da livre distribuição de marcações gráficas pelos textos. Pronto.

- Ela mandou ser no mínimo dez linhas.

- Explica o que são marcações gráficas ou desenvolve os diferentes sentidos de hierarquia. Dá linha.

- Assim, em itálico, vai ser muita provocação, melhor não arriscar.

- Minha experiência me informa que nada do que fizermos nos livrará de uns pontos a menos. Prá gente, a conta dela começa com sinal de menos, e fecha com sinal de menor que dez. Nossos nomes estão sublinhados na pauta, com marcador de texto verde-abóbora.

- Vamos caprichar para a Jade não ter que mendigar pontos para a média este ano.

- Tô nem aí. Podem cutucar a vaca. Não dependo de nota prá viver. Já disse e repito, estou aqui fazendo turismo. minha mãe disse para eu flanar na escola por que na rua os estranhos precisam de paz. Aqui eu só perturbo velhos conhecidos.

- Você é meio grudenta, verdade. Começamos, então.

    Vem de longa data a necessidade de uma ampla reforma educacional...

- Que não foi mais longe do que uma estreita reforma ortográfica.

- Ô, terrorista! Desse jeito vai atrasar a hora do lanche, pô.

-Vai, não. A hora é agora. Eu trouxe tangerinas e sandú de shitake.

- Vou pedir a pizza.

Dia seguinte. Aula dupla. Apresentação dos grupos. Dez minutos para cada. Um manifesto chegou quase nude, com marcas de shoyo, maionese e catchup, salpicado de pontos e vírgulas.

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