Glau

 - Sabia que minha MÃE grita? 

Pedro jogou na roda de conversa da turma. Imediata atenção do Jardim 4. Glau saboreou o silêncio. Percebeu as faíscas dos olhares. Sentiu a respiração entrecortada pelas bocas abertas.  Podia ler os balõezinhos de pensamento em letras de imprensa maiúsculas. Numa projeção para dentro, estavam repassando suas vidas de modo acelerado e se dando conta de que não tinham registro vivo da mãe do Pedro sendo como as outras.

Ela já estava lá, quando a porta se abria para a saída. Pegava a mochila e seguia de volta para o estacionamento. Paradas simpáticas no caminho. Não precisava chamar. Pedro era louco para colar na mãe. Já o pai – um cara que construía foguetes e satélites, que lutava kung-fu e tinha uma espada ninja de verdade, e que levava ele para ver dinossauros. Praticamente um herói da Marvel.

Glau não tinha visto nem o pai nem a mãe hoje. Estava preparando o material das atividades do dia. As crianças, veteranas, acostumadas com os rituais de chegada: descalçar sapatos, vestir pantufas, cada qual seu gancho de mochila e lanche no cantinho de copa improvisada, pronto, sentam-se na roda com seus interesses de casa.  Burburinho. Entre um e outro assunto, as crianças leem as paredes e mapeiam as prateleiras.

Hoje, o foco é no Pedro. A essa altura a turma se conhece de vida toda, desde sempre compartilham os dias e as festas do pijama, os acantonamentos de chuva, almoços e bagunçasextas nas casas uns dos outros, nos pic-nic na pracinha, aniversários no parque, passeios no zoo, no jardim botânico, no museu, no coreto do condomínio. Uma família ampliada, amigos-irmãos de verdade. Ora é o pai de um que leva, a mãe de outra busca, ora uma namorada ou namorado de alguém que faz as vezes. Os adultos são brinquedos e assunto de conversas. Tal pai só leva prá shopping. Em tal e tal casa só têm comida vegana. Gostam de conhecer diferentes lugares, gentes e comentar tudo, repertório vocabular excelente, Glau anota no diário de classe. Estão descobrindo, AGORA, que a mãe do Pedro grita.

Na ficha consta que a família de Pedro é pacifista. A educação das crianças, com comunicação não violenta, é um modo prático e saudável de aumentar a inteligência e o amor no mundo. Pessoas de espírito cultivado, Glau pensa, com muita disciplina e sociabilidade. Pedro e a irmã mais nova foram meticulosamente planejados para bons auspícios. A vida do casal, toda amorosamente agendada, planilhada e paga em moeda corrente. Os filhos acomodados, carinhosamente, em quartos decorados com paletas estimulantes para a vida tranquila. Ambos os pais profissionais bem remunerados e bastante autônomos para decidirem sobre a própria vida. Glau vê uma vida fluida e harmoniosa, como num jardim japonês.

Glau se distraiu vendo a curiosidade das crianças se transformar em um slime, igual ao que uma mãe ensinou a fazer na Festa da Cultura, grudenta! Pedro soube tomar seu tempo, fazer uma respiração completa, como a que ensinaram na prática de yoga. Os outros todos segurando o ar. Pedro dava o roteiro cheio de daís e nés. Segue a história.

Não deu tempo. A minha mãe gritou. Eu tinha voado, pro banco de trás. Pra ir pra casa da minha vó, acho. De noitão. A minha mãe ‘tava virada assim, ó. As mãos dela eram de monstro, com garras no banco da frente. Não tinha os pés, só a barriga, que  mexia assim, ó blomp, blomp. E, apertava minha mãe. Ela ‘tava respirando bem brava, fuuu, fuuuu, fuuu. Meu pai sumiu. Minha mãe com os OlhOs da abertos, enooormes e vermelhos, soltando fogo. A boca fazia barulhos da garganta. Aaaaagh. Aaaaaaaahhhh. Cadê a garrafinha de água? Não tava. Meu pai chegou com minha irmã derretida assim, assim, ela caiu na cadeirinha assim. Bem na hora que ele ligou o carro, minha mãe gritou. Beeeem gritado! Saiu um monte de água. Plaft. Meu pai ficou azul. Minha irmã acordou chorando. A gente foi correndo, correndo, prá rua, correndo, quando meu pai fez assim, assim, rrrriiiii assim com o carro, saiu uma bolona de sangue da minha mãe. Mó bolo assim eca. Eca. Tinha um irmãozinho! Não deu tempo de ir pra casa da vovó.

Se podia sentir a vibração das engrenagens nos cérebros dos pequenos em intensa atividade, maquinando para encaixar a nova situação. A imaginação das crianças projetada pelo brilho dos olhinhos numa tela sutil no meio da roda. Quase dava para Glau ver, como divertidamente funcionando. O grande jogo de equilibração e acomodação de Piaget, ao vivo, em pulsos. Os bastonetes de conceitos animados em neon caindo em seus lugares, um jogo de tetris na cabeça de cada um. Glau sabe, as crianças AGORA sabem: a mãe do Pedro grita.

Glau tomou fôlego no pasmo dos miúdos e se preparou para a enxurrada de perguntas de biologia, existenciais, da vida, que viria com certeza. A primeira a levantar uma dúvida foi a Malú.

- Glau...

-Diga.

-A gente pode nascer no viaduto?

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