Andanças
Autêntico. Meu
turismo favorito. Sem serviço de mecânica autorizada. Típico. No “auto-socorro”
da beira de estrada tem sorvete caseiro. Sorte. Crianças gastando as pilhas de
tempo em escadarias e bancos de cimento. Praça. Um palito de picolé para fazer
as vezes de colherzinha do sorvete. Cidadezinha. Eu sentindo falta de um “Guia Michelin”
de igrejas. Se tivesse um livro talvez me deixassem em paz. A caminho do mar.
Esse não parecia bêbado, aparentava inofensivo e desarmado. Todo animadinho de papo, na minha frente. Nenhum lugar para fugir. Meus ouvidos navegaram no coroa de média estatura, magro e firme, cara de ondas plácidas, pele usada e tostada. Chapéu de feira, botas locais. Abri meu campo de força, deixei entrar o desconhecido.
Daí, fechei o
tempo! Acabou-se a minha casquinha! Impacientei-me. Eu não achei motivo para
abrir discussão com o avô dos outros sobre assunto vencido com o meu próprio. A
céu aberto. Mas, o sujeito ainda não tinha
achado parênteses para concluir o monólogo. Ponderei, decidi sair da vesperal
com a elegância de livro da Danuza Leão: desviei o olhar, estiquei o pescoço para
alcançar a conta do carrinho de pipocas e de algodão doce, girei meio
corpo para medir o trânsito negativo e, tiro fatal, conferi as horas no
relógio de pulso imaginário. Calculei, de graça, uns oitenta anos para o
senhorzinho e cinco minutos de paciência esgotada para mim.
A vírgula que cravei
no nariz, causou uma pausa fleumática no antigo ciclista. Aproveitei para içar uma
curiosidade sobre o que mais me intrigou naquela biografia. Na lata: como uma
pessoa viaja o país inteiro, falando com todos os seres viventes do caminho,
depois, ainda, vive no sertão por 40 anos com família grande mantendo intacto E
forte o sotaque de alemão? Ele respondeu em tom, pronúncia e estrutura gramatical
germânica que era brasileiro, não era alemón. Viveu no Paraná, até os
dezesseis anos. Os pais, sim, eram alemães, ou algo assim, fugidos da
europa’n’guerra, agricultores, da colônia. Ele? ele nón! ele, foi ganhar a
bicicleta, montou-se num vento p’rá nunca mais! Não voltou sequer para ver os seus
velhos descerem à cova. Era brasileiro, repetia, veemente, tinha andado por
tudo quanto é rio, acampado por rincões que ninguém nem sabia antes dele ter
posto no mapa. Está certo que tinha nascido na Alemanha, chegara bebê, mas era
bra-si-lei-ro! Com erre gutural.
Nesse ponto, dei
por encerrado o recreio, agradeci com os olhos a história voluntária. Minha
boca retribuiu, espontânea, contando que eu estava só de passagem, em andanças,
para um outro brasil. Com a bagagem, juntei as crias e a vontade de vida
própria, num fusca. Mais adiante, sentindo
que tinha deixado um país conhecido para trás, dobrei a esquina.
Para
Rosiene
04/08/2021
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