Andanças

 

Autêntico. Meu turismo favorito. Sem serviço de mecânica autorizada. Típico. No “auto-socorro” da beira de estrada tem sorvete caseiro. Sorte. Crianças gastando as pilhas de tempo em escadarias e bancos de cimento. Praça. Um palito de picolé para fazer as vezes de colherzinha do sorvete. Cidadezinha. Eu sentindo falta de um “Guia Michelin” de igrejas. Se tivesse um livro talvez me deixassem em paz. A caminho do mar.

Esse não parecia bêbado, aparentava inofensivo e desarmado. Todo animadinho de papo, na minha frente. Nenhum lugar para fugir. Meus ouvidos navegaram no coroa de média estatura, magro e firme, cara de ondas plácidas, pele usada e tostada. Chapéu de feira, botas locais.  Abri meu campo de força, deixei entrar o desconhecido.

O velhinho aportou pescando a minha pupila, que ancorou na dele quando mostrou que ele também não era dali. Sem cerimônia, abriu um parágrafo em que contou como chegou, pedalando, quarenta anos antes. Rapazote, ganhou a bicicleta e o mundo, indo de canto em canto; aprendeu ofícios, acabou fazendo mapas, fez registros de minas, instalou cabos de eletricidade, puxou cerca de arame e, por fim, virou fiscal de agricultura. Lugar nenhum nem tinha estrada, era tudo mato. Gestos contidos. Narrou pitadas de umas 400 cidades onde bateu carimbo. Quase cruzava com a Coluna Prestes – desviou- tinha acabado de entrar numa lavra de prata. Não queria perder para os comunistas. Piscou de um olho. Até que, num fôlego, ainda no mesmo parágrafo, ele ousou contar como achou uma “moreninha” ali naquele sertão, que não gostava de baile E “essascoisas” E com quem se casou E com quem teve os quatro filhos homens E as três filhas mulheres E, murchou os gestos, queria confessar, sua única tristeza na vida: os filhos homens não quiseram estudar, montaram comércio; E as filhas mulheres é que viraram engenheiras, estragadas p’ra casamento.

Daí, fechei o tempo! Acabou-se a minha casquinha! Impacientei-me. Eu não achei motivo para abrir discussão com o avô dos outros sobre assunto vencido com o meu próprio. A céu aberto.  Mas, o sujeito ainda não tinha achado parênteses para concluir o monólogo. Ponderei, decidi sair da vesperal com a elegância de livro da Danuza Leão: desviei o olhar, estiquei o pescoço para alcançar a conta do carrinho de pipocas e de algodão doce, girei meio corpo para medir o trânsito negativo e, tiro fatal, conferi as horas no relógio de pulso imaginário. Calculei, de graça, uns oitenta anos para o senhorzinho e cinco minutos de paciência esgotada para mim. 

A vírgula que cravei no nariz, causou uma pausa fleumática no antigo ciclista. Aproveitei para içar uma curiosidade sobre o que mais me intrigou naquela biografia. Na lata: como uma pessoa viaja o país inteiro, falando com todos os seres viventes do caminho, depois, ainda, vive no sertão por 40 anos com família grande mantendo intacto E forte o sotaque de alemão? Ele respondeu em tom, pronúncia e estrutura gramatical germânica que era brasileiro, não era alemón. Viveu no Paraná, até os dezesseis anos. Os pais, sim, eram alemães, ou algo assim, fugidos da europa’n’guerra, agricultores, da colônia. Ele? ele nón! ele, foi ganhar a bicicleta, montou-se num vento p’rá nunca mais! Não voltou sequer para ver os seus velhos descerem à cova. Era brasileiro, repetia, veemente, tinha andado por tudo quanto é rio, acampado por rincões que ninguém nem sabia antes dele ter posto no mapa. Está certo que tinha nascido na Alemanha, chegara bebê, mas era bra-si-lei-ro! Com erre gutural.

Nesse ponto, dei por encerrado o recreio, agradeci com os olhos a história voluntária. Minha boca retribuiu, espontânea, contando que eu estava só de passagem, em andanças, para um outro brasil. Com a bagagem, juntei as crias e a vontade de vida própria, num fusca.  Mais adiante, sentindo que tinha deixado um país conhecido para trás, dobrei a esquina. 


Para Rosiene

04/08/2021

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