Canseira²
Lavo na máquina antes de triturar, não quero ver nem um pedacinho do teu sangue sujo. Faço igual à outra lá, a famosa que virou filme: ponho tudo em saquinhos, lacro com fitilho dourado e rebolo no mato. Melhor não, dá mosca. Capaz de depois ter legista cantando “foi ciúme, sim!”. Não. Então, ponho em saco de papel biodegradável e jogo no lago Paranoá. Perto da estação de esgoto. Sim. Vai virar pirão, não gosta de peixe? Pois, vai ver o que acham de você. Sem sal, sem graça. Você nem quer lápide mesmo, vive resmungando. É um favor que te faço. Compartilho nas redes. ‘Cabô, ‘ca-bô! No comments. Rita Lee no fundo musical... “Perdi a cabeça...” Eita, e a cabeça?! Porra, você vive dizendo que não tem cabeça pra isso, que não tem cabeça praquilo, vai ter cabeça justo nessa hora. Ô, canseira, viu? Pico, bem picadinho. Faço acepipes do teu cérebro de lhama, receita mapuche. Sirvo com cerveja pros teus amigos do futebol. Aproveito e faço um piquenique às margens plácidas. Cadeira de praia, toalha xadrez, vinho e pipoca. O sol todinho pra mim. Enfim, um sossego! Ah... o melhor dos tempos!
- Tão quieta. Calada. Pensando longe, amor?
- Nada, bem. Só esperando um instantinho até a alma voltar pro corpo.
Da porta, sorri e estala um beijo lançado com o queixo.
- Até parece! Sonhou muito hoje?
Olho em volta. A sala explode em brilho. Me encontro no torpor da dúvida: tudo, aqui, ao mesmo tempo, agora ou em doses homeopáticas? Alexa solta um “Loucura” com Adriana Calcanhotto, playlist feminina. A trilha sonora que orna com os móveis banhados em óleo de peroba e seus complementos art nouveau, inventário de alguém que ama de verdade – abajur, vasos, flores, quadros dourados. Sobe o cheiro bom das minhas mãos nas toalhas e cortinas, nas almofadas e mantas do sofá. Faço tudo por amor. Me pergunto se é maior em mim a paixão ou a razão. Começo a sentir uma letargia densa subindo pelas pernas, percorrendo a coluna e colando meus ombros nas minhas orelhas. Ainda resta um corredor, sem luz. Ele, na porta.
- Muito, não. O de direito. Sonhei que tinha criança, logo cedo, saindo da cama para o banheiro e chinelos e pijamas, roupas de cama, cobertas para recolher. Estava até morninho e era bom demais para ser tão apressado. Tinha cheiro de pão fresco com manteiga e suco de mexerica – que apareceram do nada. De repente, vi a mesa suja, a cadeira melada, o banheiro molhado, o lixo me olhando. No meu sonho era tudo autolimpante, as contas eram auto pagantes e a comida auto preparada. Passei o dia assim, nessa fantasia de que eu dava conta de arrumar a casa, de que trazer roupas e crianças limpas. O dia inteiro sonhando que costurava e bordava e escrevia umas ideias que passaram pela minha cabeça sem atrapalhar agenda de ninguém da escola, da família, da vizinhança, do trabalho. Enfim, delírio. Virou pesadelo na hora que tive que me teletransportar para atender o técnico da máquina de lavar e receber o pedreiro para o orçamento do reparo no estrago do vazamento da semana passada na mesma hora da reunião com a coordenação. Alucinei.
- Você tinha que publicar suas piadas na internet. Ando vendo umas coisas bem engraçadas no celular, tem stand ups que me fazem lembrar de você, às vezes. E, antes de sumir no escuro doméstico, mandou outro beijo estalado e aéreo.
Foram os sapatos. Marrom chocolate e bico de matar barata. Foram os sapatos que o trouxeram ao baile. Encarou meu par de Mary Jane prateado, salto de mocinha. No meio de um tango, se fez de palhaço e me amarrou nos cadarços. Pensei: feitiço ou praga. Seja lá o que for, colou. Assim facinho, assim sem dó. Agora, passa pelo quintal sem fechar o portãozinho do cachorro que ele já deixou pular na calça de trabalho. Vou lavar. Abre a torneira do lado dos degraus de entrada e faz uma lamazinha para as plantinhas sorrirem afogadas e entra sem nem tirar os sapatos na porta. A maçaneta serve só para abrir, para fechar é a mãozona na pintura e plaft. Sei que chegou. Anda pelo meio do tapete, deixando chaves, carteira, panfletos, boletos, pastas e rastros pelas superfícies planas até o quarto. As meias ficarão sujas no chão do banheiro. As sacolas de compras no aparador, pingando.
Eu, no sofá, gin noturno com tônica e cereja, aprecio o reflexo na janela do outro lado. Ouço o funk-pop-astral-tech-rap-blue-odara-coreano de um vizinho. Repenso: praga, com certeza.
Brasília, 05/23
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